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A Nossa Romaria

 
Saio, pela manhãzinha, para a ida à feira da romaria da minha terra. Há rituais que estão recheados de infância feliz, de encontros “Olha quem ela é, seja bem aparecida!”, doses generosas de autenticidade e tradição, com sabor a cabrito e arroz no forno, de fé vestida de cores e sonhos, que ampliam cada andor que passa. 

O dia 13 é o dia da feira franca e lá vou eu ao encontro das barraquinhas e do irresistível desfile de doces: pão-de-ló, bolinhos de amor, cavacas, rosquilhos. Fácil de escolher, levo dos quatro, e continuo o meu trajeto, pelas ruas calcetadas de memória.  
Passo pela feira do gado. Junto com a chegada de bois e cavalos troteia uma certa folia, própria dos mercados. Mais tarde, a corrida de cavalos traz novos galopes de emoção à romaria e podemos apreciar o porte único destes animais.  
À noite, mergulho na multidão e dirijo-me à ermida da Senhora Aparecida, de forma a cumprir uma tradição que me acompanha desde miúda: ver a Senhora Pequenina e espreitar os andores, ainda adormecidos, na capela. Enquanto caminho vejo palavras desenhadas pela iluminação da festa. Há palavras bonitas de se desenhar e soletrar. Senhora Aparecida e Romaria soam a coração cheio.  
É hora de celebrar a música tradicional e o folclore!

Entre ruas onde fervilham pessoas, Aparecida é palco de gente feliz, onde a animação é construída ao compasso das violas e de saias rodadas.  O dia 14 enche as ruas de gente e, mais uma vez, sentimo-nos abraçados por quem fala a gramática da partilha. De manhã, os Zés Pereiras com os bombos e as bandas de música dão o ritmo à festa, à tarde, brilha a procissão e, à noite, o fogo de artifício ilumina todos os lugares.  
Os cantos da vila transpiram uma energia que convida a um dia de sorriso largo. Sente-se aquela alegria que vem de dentro.  
Às 11 horas, temos a eucaristia, com rostos chegados de longe e, mais tarde, já depois do almoço com a família e os amigos, é a hora da procissão solene. Descem, então, às ruas os “anjinhos” a abrir caminho para um andor tão grande que quase toca o céu. Não há como não ficarmos radiantes, felizes como crianças, e esse é o maior compromisso com a beleza das coisas. A essência da Romaria é aquela. Olhar e sentirmo-nos tocados pela Senhora.  

Já em miúda ficava quieta, tipo estátua! Eu, cá de baixo, olhava a Senhora pequenina e viajava para um outro tempo, onde via o ermitão que tinha carregado a imagem da Senhora Aparecida ao colo. Era um rosto desenhado pelo cansaço de um homem errante, onde sobressairia um olhar iluminado pela fé. Imaginava assim o ermitão, cada vez que a minha avó me contava a lenda da Senhora Aparecida: Tudo se tinha passado há muitos e muitos anos. Por esses tempos, um pobre eremita, que pedia esmola de terra em terra, trazia ao colo, num abraço de proteção, a imagem de uma senhora, não grande em tamanho, mas, dizem as escrituras, grande em serenidade e afeto. Era um homem amado por todos pela sua dedicação e bondade para com as crianças, velhinhos e animais. O seu dormitório, também se vestia de simplicidade: uma pequena e seca mina situada no monte da Nossa Senhora da Conceição, onde atualmente, fica o santuário da Senhora Aparecida. Se se ausentava por algum tempo, lá voltava ao abrigo, tão pobre de conforto e aconchego.

Porém, certo dia, todos os aldeãos se convenceram de que aquele homem de fé seguira outro rumo. A sua sentida ausência só podia explicar-se por uma longa viagem, na companhia da santinha guardiã. Assim, passaram-se os dias, até que o bondoso eremita caiu no esquecimento. Só passados anos, por volta de 1823, se tornou a ir pescar ao baú da memória aquele personagem único, que orava a todo o momento. O motivo advinha de um estranho mistério que estava a criar a curiosidade nas gentes da terra: Inúmeras estrelas cadentes caíam insistentemente no monte da Nossa Senhora da Conceição. Seria obra do acaso ou facto digno de descoberta? O melhor a fazer era partirem para as escavações que seriam razão de surpresa diante de tamanho imprevisto: na terra remexida, juntamente com louças, carvão e vestígios do velhinho há muito desaparecido, eis que surgia a radiosa imagem, com o seu manto azul e o seu menino risonho, companhia de todas as andanças do pedinte.  Repicaram os sinos a festejar tal achado, e de todo o Alto Minho a arribas do Douro vieram devotos ajoelhar, cumprir promessas, rogar favores. 

Porém, certo dia, todos os aldeãos se convenceram de que aquele homem de fé seguira outro rumo. A sua sentida ausência só podia explicar-se por uma longa viagem, na companhia da santinha guardiã. Os devotos da terra mandaram fazer um andor em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, com cerca de 15 metros (atualmente foi aumentado para mais de 20 metros), sendo carregado aos ombros por oitenta homens. No rodopio dos sons e das emoções que fazem a festa, o silêncio da procissão lembra a fé dos homens. E o andor grande, colorido, luminoso, nobre, sobressai, porque além da Senhora Pequenina, carrega a força da crença.  

A Romaria da Senhora Aparecida é velhinha! Faz 200 anos! É património de imagens e memórias, carregadas de histórias. No tempo dos meus avós, além da devida religiosidade, não faltava o frenesim e a animação típica da festa na aldeia! Diz quem recorda tempos antigos que se ouvia o repenicar dos sinos, o estoiro dos morteiros, os vendedores de “aua” doce, tremoços, alfádega, instrumentos musicais e brinquedos de madeira, com os característicos pregões: “Olha o raminho da alfádega!”, “Quem quer aua doce!” 
Atualmente, a festa tem outros sons e tonalidades, mas continua a ser um somatório de coisas boas.  
O dia 15 termina em grande. À tarde, a romaria acelera rumo às corridas de motos, num circuito de adrenalina. O evento traz à terra um público fiel, que acompanha, com expetativa, as desafiantes provas sob duas rodas.  

A noite é iluminada por partituras de amizade, por pessoas que sorvem música e alegria, por sabores com cheiro a farturas, pão com chouriço e brindes de conforto, por um cruzamento de tradição e modernidade. Este ano, sobe ao palco um dos maiores artistas pop nacionais da atualidade: Diogo Piçarra vai interpretar grandes êxitos, alinhando uma multidão à volta de um concerto que se imagina grandioso.  

Depois de dias de diversão, o que sentimos repete-se a cada ano: há muito para viver na nossa Romaria d’agosto. Vivê-la é demorarmo-nos na fé que nos passaram, ao ritmo de promessas entrelaçadas pela gratidão e andores com gente de alma bonita dentro! É viver lado a lado nas emoções, numa romaria que é nossa há 200 anos.

 

 

Olga Faria